Ciro Gomes: 'Não sou coxinha, nem mortadela'

75051482_PA São Paulo SP 20-02-2018 Ciro Gomes em seminario de jornalismo organizado pela Fo.jpgSÃO PAULO – O ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) refutou os estereótipos de que pertença à direita, ou à classe de “coxinhas”, como é estigmatizada, ou à esquerda, com são referidos os “mortadelas”. Ele participou nesta quarta-feira de evento na Câmara Americana de Comércio (Amcham), em São Paulo.

A declaração foi feita em reação a uma fala de seu coordenador de campanha, o professor Nelson Marconi, sobre ser desenvolvimentista “sem medo de ser feliz”, segundo disse em entrevista recente. O desenvolvimentismo é uma corrente econômica que prevê uma participação ativa do Estado na promoção do desenvolvimento.

— Começou a luta. E a luta no Brasil e no mundo não é racional, nem honesta. Então a ideia é satanizar, porque é recente a frustração de todos nós com o que aconteceu com o governo Dilma. Então agora é assim, qualquer um que não seja coxinha, tem que ser mortadela. E eu vou resistir, não sou coxinha, nem mortadela —, disse Ciro

Questionado sobre a diferença entre ele, e a ex-presidente Dilma Rousseff, também ligada a essa corrente, Ciro disse que a diferença entre os dois é como a existente entre a água e o vinho. Ele acrescentou que é crítico do governo da petista “do primeiro dia ao último.”

O ex-ministro reforçou que Marconi, “brilhante”, em suas palavras, não é seu coordenador de programa econômico, mas de plano de governo. O secretário da Fazenda do Ceará, o economista Mauro Benevides Filho, e o ex-ministro Roberto Mangabeira Unger, serão seus principais assessores na área econômica.

— Vou montar uma equipe. E essa equipe é livre para pensar e dizer o que quiser, porque por enquanto, estou completamente aberto. Trago ao debate minhas convicções, ideias e experiência. Mas só sustento uma ideia quando uma ideia melhor se apresente —, afirmou.

A uma plateia de empresários, Ciro também reforçou que o setor privado, sozinho, não consegue promover o desenvolvimento. Nesse sentindo, ele defende um diálogo entre um “Estado empoderado, sadio e socialmente controlado” e que seja parceiro da iniciativa privada, “indispensável ao progresso humano.”

— Temos que achar um caminho que se dê o devido valor à iniciativa privada, que já mostrou sua essencialidade no progresso humano. Mas que não acredite no Laissez-faire [liberalismo econômico] como ferramenta de promoção do desenvolvimento. Nunca aconteceu isso. Não há esse precedente.

Ciro também defendeu a urgência da implementação de reformas econômicas, no país, sobretudo as da Previdência e tributária, para que o país não siga dependendo de ciclos de aumento de preços de commodities para crescer. Na segunda frente, ele reforçou a importância de uma taxação de lucros e dividendos, que só não acontece no Brasil e na Estônia, e um aumento do imposto sobre heranças e doações. Ciro ainda disse que, em um eventual mandato, não haverá Refis [programa de refinanciamento de dívidas tributárias], mas um endurecimento de penas para quem sonegar impostos

Na área de política externa, reforçou a sua convicção de que o momento pode ser oportuno ao Brasil para estreitar relações com os Estados Unidos. Ele lembrou que Trump nunca citou o país em suas afirmações, “por ignorância ou irrelevância”, o que não é necessariamente ruim, pois significa que não há um preconceito ou uma memória ruim.

— Se o Brasil souber para onde quer ir, e é isso que precisamos fazer, eu acho que está fecunda a possibilidade de celebrar uma relação nova e muito produtiva com os norte-americanos.

Na coletiva de imprensa após o evento, Ciro comentou que está em constante diálogo com “todas as lideranças” do PSB, incluindo Márcio França (PSB-SP), para montar uma chapa para a Presidência, com um possível vice da legenda, mas que “ainda não é uma hora madura para alianças”. Ele também elogiou a presidenciável Marina Silva (Rede), a quem definiu como “honrada, querida”, mas maior do que ele para ocupar o cargo de sua vice.

Ele ficou com olhos marejados ao comentar sobre o ex-presidente Lula, e os elogios que fez a Ciro em livro que irá lançar na sexta-feira. O ex-ministro disse que tem muita intriga nessa área [da relação dele com Lula] e que está com o coração muito doído com o que está acontecendo, Reforçou que o ex-presidente não é um mito, ou uma figura distante, mas um “velho amigo de muitos anos”, e que as intrigas podem ser motivas pelo medo de que haja uma união entre a esquerda nas eleições. Questionado se o objetivo de sua gravata, de cor vermelha, era conquistar o PT, ele negou. Disse que era a cor de seu partido, junto com o azul, de sua camisa.


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