Casa em que Tom Jobim viveu em Ipanema deve dar lugar a prédio


De 15 em 15 anos, o Brasil destrói o que construiu nos últimos 15 anos e
agora, com um atraso que também é muito brasileiro, chegou a vez de derrubar a
casa da Rua Barão da Torre 107, em Ipanema, onde Antonio Carlos Jobim morou
entre 1960 e 1965. Foi nesse período que ele compôs “Samba do avião”, “Corcovado”, “Só danço
samba”, “Água de beber”, “Ela é carioca”, “Inútil paisagem” e tantas outras. Foi
dali, de uma casa com varanda, que Tom saiu um dia, no verão de 1962, dobrou à
esquerda no portão, atravessou a Farme de Amoedo, desceu a Rua Montenegro à
esquerda e sentou-se com o amigo Vinicius de Moraes no bar Veloso, na esquina
com a Prudente de Moraes. Passou uma adolescente linda, Heloísa Eneida Menezes
Paes Pinto, a caminho do mar. Foi inspiração suficiente para que escrevessem uma
ode àquela moça, que coisa mais linda, que vem e que passa. Era uma bossa nova
cheia de balanço a que deram o nome de “Garota de Ipanema”. Naquela casa
construiu-se um país. Ela está sendo posta abaixo para a construção de um
edifício. É muito comum que se confunda essa Barão da Torre 107 com o endereço que
consta da letra de “Carta ao Tom”, de 1974, samba de Toquinho e Vinicius, que
dizia “Rua Nascimento Silva 107, você ensinando pra Elizeth/As canções de
‘Canção do amor demais’”. Tom também morou ali, entre 1954 e 1960, no segundo
andar do prédio de três. Foi o escritório de parcerias com Billy Blanco, Marino
Pinto, Dolores Duran, Newton Mendonça e o próprio Vinicius de Moraes, encontros
que renderam delicadezas sofisticadas como “Teresa da praia”, “Aula de
matemática”, “Estrada do sol”, “Desafinado” e “Insensatez”. Naquele apartamento,
como diz a letra de “Carta ao Tom”, ele mostrou a Elizeth Cardoso as músicas que
A Divina incluiria no LP Canção do amor demais, de 1958, o disco que
tinha o violão desengonçado de João Gilberto e é considerado o marco inicial da
bossa nova.Tombado pelo Patrimônio Cultural carioca, com direito inclusive a uma
plaquinha dizendo que Tom morou ali, esse prédio da Nascimento Silva 107 se
mantém de pé. Resiste como se fosse a rara memória sobrevivente de um bairro
que, de resto, dá de ombros para o passado. Parece preferir cantar “Chega de
saudade”, outra música que Tom e Vinicius fizeram ali no segundo andar e também
ensinaram para Elizeth.Aos poucos, cumprindo-se a maldição dos 15 anos, as pegadas de Tom Jobim e da
bossa nova vão desaparecendo do bairro onde ela nasceu. Copacabana oferecia as
boates, o Beco das Garrafas, os locais de trabalho para os artistas, mas era em
Ipanema que Tom, Carlinhos Lyra, Roberto Menescal e Newton Mendonça moravam,
sentavam-se ao piano, tiravam a capa do violão e criavam a revolução musical que
trouxe o sol, o mar e uma classe média inédita para a música popular. O primeiro
endereço de Tom em Ipanema foi o da Epitácio Pessoa 1664, onde passou a infância
numa casa que funcionaria como o Colégio Brasileiro de Almeida, fundado por sua
mãe, e mais tarde ainda a UniverCidade. Morou em outros endereços no bairro, na
Saddock de Sá 128, e na Redentor 307. Tudo posto abaixo. A casa da Barão da Torre 107, aquela
onde arredondou a música “Garota de Ipanema” e agora será demolida, pertencia à
família de Thereza Hermanny, a primeira mulher de Tom. Foi vendida em 10 de
outubro deste ano para a construtora RK3 Empreendimentos Imobiliários, que
pretende construir ali um prédio de 14 apartamentos, com 100 metros quadrados
cada um. Depois de Tom, a casa serviu à Escola Sarah Dawsey e hoje, com o muro
pintado de vermelho berrante, abriga o Bonita, um hostel de 29 quartos, piscina
e uma estátua do compositor em tamanho natural. Por enquanto, não há qualquer
recomendação do Patrimônio Histórico a sua preservação e que impeça a demolição
para os novos propósitos imobiliários. O maestro Paulo Jobim, filho de Tom, lembra que o pai passou mais tempo na
Nascimento Silva que na Barão da Torre. Explica o que moveu a família.
“Decidimos vender a casa porque eram vários herdeiros. Acho que são dez ao todo.
Tinha gente precisando de dinheiro. Concordamos em vender porque não tinha
sentido ficar com essa casa eternamente.”Carolina Fernandes, sócia do hostel, tem esperança de que — como o pagamento
da construtora à família Jobim pela compra (R$ 6,5 milhões) só começa em
fevereiro — surja um movimento da cidadania carioca para manter a casa de pé e o
negócio seja suspenso. “Não tem porque a cidade do Rio de Janeiro perder esse
patrimônio”, afirmou Fernandes. Ela pretende ficar. Disse que a renovação do
contrato de locação em favor do hostel é automática, prevista para este mês, e
ela já está tratando disso judicialmente.De acordo com a construtora, a venda da casa já foi efetivada, o pagamento feito e a transferência da escritura realizada. Assim, a casa não pertence mais à família Hermanny e não haveria, portanto, a renovação automática de contrato de aluguel.Sócio presidente da RK3 empreendimentos e responsável pela operação, Henrique
Blecher disse que os atuais locadores perderam os prazos de renovoção. “Não
estamos aqui para destruir o patrimônio de ninguém. Estamos tentando fazer
projetos para a cidade, que agreguem. Nosso projeto foi feito pelo Celso Rayol,
um dos maiores arquitetos, especialista em trabalhar projetos em áreas de
proteção histórica e cultural. O projeto vai levantar aquela quadra, que está
passando por uma revitalização”, afirmou. tom-jobimDemolida a casa da Barão da Torre 107,
Tom Jobim sobreviverá em poucos endereços do bairro que ele transformou aos
olhos do mundo num mito de paraíso tropical. A loja Toca do Vinícius,
especializada em bossa nova, tem um bom estoque de seus discos. Dois quarteirões
adiante, embora totalmente descaracterizado em relação ao visual daquela tarde
de 1962, continua aberto o bar — não mais Veloso, mas Garota de Ipanema — de
onde ele viu Heloísa a caminho do mar. No Arpoador, a estátua de tamanho natural
do compositor, caminhando com um violão, precisa de restauro urgente, pois os
ombros e principalmente a bunda de Tom, de tão alisados para selfies, perderam a
cor original. O clima é melancólico, como na “Carta ao Tom”, em que Vinicius e Toquinho
rimam “saudade” com “felicidade”, na lembrança dos bons tempos de Ipanema: “É,
meu amigo, só resta uma certeza/É preciso acabar com essa tristeza/É preciso
inventar de novo o amor”.
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