Aumento de jacarés nas ruas se dá por causa de período de reprodução


RIO — Tem motivo o aumento de jacarés sendo flagrados, quase como atração turística, nas lagoas da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio. Pertencentes à espécie Caiman latirostris e popularmente conhecido como jacaré do papo amarelo, eles têm como habitat natural as águas doces e se reproduzem entre setembro e março. Daí que, nesse período, segundo especialistas, tendem a procurar ambientes menos competitivos para conseguir comida e parceiros. Outra explicação para os constantes “passeios” pela cidade é a atividade humana.

— Cada vez mais as áreas naturais que os jacarés usam estão sendo reduzidas, vide o aterramento de regiões alagadas da região de Jacarepaguá. Estamos destruindo a qualidade dos nossos rios, canais e lagoas. Então, eles se refugiam em áreas onde conseguem obter recursos. É um grito de sobrevivência — conta o biólogo Ricardo Freitas, do Instituto Jacaré.

links jacaré 30/10/2018

No fim de semana, um vídeo obtido pelo biólogo Mário Moscatelli mostrou um animal sendo provocado por curiosos que estavam à beira da Lagoa da Tijuca. A imagem chamou a atenção da equipe da Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente, que, em nota, afirmou que “fará um estudo para atualizar a população de jacarés na cidade, assim como um diagnóstico da mudança de hábitos dos mesmos, provocadas por alterações do habitat”.

Segundo Freitas, o jacaré de papo amarelo é o único tipo existente na Região Fluminense. A espécie até sobrevive em águas salinas, mas é nas lagoas e canais de água doce que ocorre a alimentação e a reprodução. O animal pode pesar até 130 quilos e chegar a 3,5 metros de comprimento. Tudo depende do tipo de alimentação. De acordo com Freitas, a espécie tem uma dieta diversificada e come “tudo o que você pode imaginar”.

info – dados jacaré

— Em época de reprodução, o jacaré fica com a região do papo amarelada. São animais com focinho curto, mas com a boca larga para capturar presas mesmo com carapaças muito duras, como as tartarugas. Comem também peixes, mamíferos, anfíbios… E é uma das poucas espécies que resistem a ambientes muito impactados pela poluição, como o Rio — explica.

Biólogo resgata jacaré no Canal das Tachas, no Recreio dos Bandeirantes

Por volta de 12h desta segunda-feira, 29, um jacaré chamava a atenção de quem passava perto do Canal das Tachas, que corta a Rua Gilka Machado, no Recreio. O pintor Ronaldo de Souza, de 56 anos, mora na região há 40 e disse que está acostumado. Ele já chegou a ver mais de dez répteis aglomerados:

— Colocaram até uma proteção de concreto ao redor do rio, porque eles saem e ficam andando na rua. Mas não tenho medo, porque eles não atacam ninguém. Eu vejo gente alimentando os jacarés. O pessoal costuma jogar sobra de churrasco. Sei que não pode, porque assim ele vira um bicho traiçoeiro.

79609342_CI Rio de Janeiro RJ 29-10-2018 - Jacarés em Canal na Rua Juca Machado no Recreio. Fot.jpg

O estudante Carlos Eduardo Lima, de 19 anos, já se deparou com um jacaré no caminho. Ele precisou mudar o trajeto que fazia para ir à praia.

— É estranho, porque a comunidade corre risco. Quando eu vi um andando na rua a dez metros de mim fiquei com medo e me distanciei — conta.

O artesão Rafael Ribeiro, de 36 anos, mora na região e chegou a ter a casa vizinha invadida:

— O jacaré foi parar atrás do sofá da minha vizinha. As pessoas bateram nele e tiveram que chamar os Bombeiros.

O inverno é o período de menor atividade do animal, quando ele não busca muito alimento e permanece recolhido. A primavera e o verão são as épocas em que o jacaré cresce e aparece. O biólogo orienta a população a não chegar perto ou interagir com o réptil. E se por um acaso um dos grandes cruzar seu caminho, Freitas aconselha “deixar ele seguir o fluxo dele”. O especialista, no entanto, garante que o jacaré não apresenta risco para as pessoas.

— Ele não vê o ser humano como comida e não ataca simplesmente por fome ou porque quer atacar. O fato de as pessoas jogarem comida quando ele aparece nos canais é que gera risco, pois, aí sim, ele começa a associar com comida. Daí a importância de não interagir — explica.

Para Freitas, os jacarés deveriam ser mais valorizados:

— Alem de serem um símbolo da região de Jacarepaguá, são uma espécie-chave, com grande importância no equilíbrio do ecossistema. Eles ajudam na conservação das lagos.

* Estagiário sob supervisão de Gabriela Goulart


Leia a notícia completa em O Globo Aumento de jacarés nas ruas se dá por causa de período de reprodução

O que você pensa sobre isso?