Artistas mergulham no Brasil profundo e apresentam novos caminhos para a música caipira


Representante do que há de mais delicado na música brasileira, Mônica Salmaso pôs o pé no barro da roça com seu álbum Caipira, com o qual foi vencedora recentemente em duas categorias do Prêmio da Música Brasileira. Lui Coimbra leva seu violoncelo para o mesmo ambiente de bolo de fubá, pinga e luar do sertão em Viola perfumosa — disco que assina com a cantora Ceumar e o violeiro Paulo Freire. O coletivo Selva Lírica — dos cantores e compositores Claudia Castelo Branco, Ilessi, Thiago Thiago de Mello e Frederico Demarca — faz um mergulho livre nas raízes interioranas, negras e caboclas do Brasil. O projeto Tramundo imagina e constrói sertões com tintas experimentais nas letras de Márcio Bulk e melodias de artistas como Ná Ozzetti e Thiago Amud — nas mãos e vozes de Zé Manoel, Lívia Nestrovski e Marcos Campello, entre outros.Vindos de diferentes partes do cenário da música brasileira, todos esses trabalhos — e outros, como o projeto Pra gira girar (sobre a obra dos Tincoãs), o álbum Cantilenas brasileiras (do pianista Breno Ruiz) e o grupo Pietá (que prepara seu segundo disco, Santo sossego) — carregam em comum o olhar sobre um certo Brasil profundo, caipira, interiorano, sertanejo, caboclo, raiz, indígena, roceiro, quilombola. Um olhar para dentro do país. Ou um olhar para fora a partir de dentro, num movimento de abraçar o exterior que se assemelha mais à profundidade em tons pastel de Milton Nascimento e do Clube da Esquina do que às cores saturadas pop da Tropicália. Menos a mitificação folclórica do Jeca Tatu de Monteiro Lobato e mais a potência reveladora do Jeca Total (“presente, passado”) cantado por Gilberto Gil.Idealizadora do Viola perfumosa, a produtora Renata Grecco defende que a questão central desse interesse no Brasil profundo é a busca da identidade. “A gente quer saber quem é e de onde vem”, afirmou. “A música que se convencionou chamar caipira nos dá essa oportunidade. É um retrato fiel de nossa singularidade. Tem a aguda observação do cotidiano, o canto do amor derramado, o nosso humor safado e ingênuo, essa mistura de sagrado com profano que talvez seja o que nos define. E essa riqueza esteve relegada a um nicho muito específico durante as últimas duas décadas.”O momento histórico que o país atravessa, na avaliação de Grecco, também impulsiona os artistas nesse sentido. “Quando a turbulência e os ventos fortes da realidade açoitam nossas margens, volta-se para o interior. Firmar-se nas raízes é um movimento natural e uma forma de fazer resistir aquilo que queremos preservar.”Márcio Bulk, que arregimentou os artistas em torno do Tramundo, também chama a atenção para a busca da identidade como motor desse movimento. E, baseado na definição do termo “sertão” no dicionário (terreno coberto de mato, afastado da costa; zona pouco povoada do interior do país), ele faz caber dentro das fronteiras musicais desse Brasil profundo “desde a música tradicional gaúcha, passando pelos vissungos dos negros de Minas, as canções da Folia de Reis, o forró, o xaxado, até a música caipira de São Paulo e da Região Centro-Oeste”.“Paralelo a isso, existe um sertão-interior mítico, anacrônico. Leia Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, ou assista a Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Está tudo ali: o interior-sertão como um lugar de descoberta, um lugar para se entender, se achar”, disse Bulk. “Em um de seus textos, o artista plástico Ricardo Basbaum fala em ‘construir outras paisagens, outros cenários, imaginários, não somente para encontrar lugares, mas sobretudo para localizar-se’. É uma volta a um sertão profundamente subjetivo em busca de uma ancestralidade, de uma identidade, de um norte que, por alguma razão, perdemos em meio a este nosso cotidiano tão pragmático.”Com propostas estéticas amplas — que vão das ousadias do Tramundo à atmosfera concertista de Breno Ruiz, das guitarras ao violoncelo — e focadas em diferentes visões do interior, todos esses trabalhos carregam em comum a construção de novas perspectivas a partir dessa herança. Claudia Castelo Branco, do Selva Lírica, fala do desejo de se aproximar das raízes brasileiras em busca de diálogo com a atualidade. “Isso não é novidade, sempre existiram movimentos claros em nossa música que buscaram unir extremos, como os Novos Baianos. Mas o que fazemos no Selva é singular pelo fato de serem composições nossas, que carregam linguagens distintas, mas que buscam falar, na letra e na música, sobre questões do Brasil ancestral e moderno, tudo junto e misturado: como é o nosso povo.”Ou seja, o sentido do mergulho no Brasil profundo vai além de um simples exercício de “resgate” ou “volta ao passado”. “O tabaréu, o seresteiro, o pescador sobrevivem à contemporaneidade. Eles não compõem somente um imaginário, ou um imaginário passadista, saudosista. Ele é real, apesar de pouco visto. E é bonito”, afirmou Breno Ruiz.Os artistas entendem que há nessa tradição algo atemporal, e mesmo moderno. A própria ideia de diversidade, associada muitas vezes ao urbano, talvez se aplique melhor, num certo sentido, a esse universo interiorano. “De alguma maneira, paira uma ideia de diversidade somente nas grandes capitais, mesmo quando falamos de Nordeste, de Norte, de Centro-Oeste. A música que se massificou nessas regiões parece indicar um caminho pop, de fusão para pasteurização. Popnejo, axé-pop, funknejo, breganejo… Mas há diversidade, há outra música possível no Brasil profundo”, afirmou Alan de Deus, do Pra gira girar, antes de se referir especificamente aos Tincoãs, homenageado do projeto. “(O grupo) fundiu o terreiro, a música barroca gregoriana, e criou uma sonoridade afro-brasileira.” meninosA percepção do apelo pop que existe sob a ancestralidade dos Tincoãs — e do ancestral que existe sob a vocação pop do grupo — é uma chave para entender trabalhos como Pra gira girar, Viola perfumosa e o do grupo Selva Lírica.“O que mais me chamou a atenção em toda a construção musical dos Tincoãs é a maneira como o grupo trouxe os pontos do candomblé para uma linguagem afro-pop, algo que ainda não existia na música brasileira”, disse Alvaro Lancellotti, do Pra gira girar. “A canção está à frente, não há ali um exotismo musical, um tambor ou qualquer outro elemento de forma injustificada. Há canção popular das mais finas, das mais simples, mas das mais sofisticadas também. Como Jobim, como João Gilberto e, em nosso entendimento, como os Tincoãs de Seu Mateus Aleluia, Dadinho e cia.”O movimento de aproximação da sofisticação urbana de Tom Jobim e João Gilberto com as tradições que estão além do horizonte dos prédios mostra a natureza do olhar desses artistas sobre elas. Eles identificam ali a elegância e a força criativa onde a observação mais rasa identifica apenas o simplório e certa graça folclórica.Trata-se de refinamento, afirmou Salmaso. “Esse refinamento encontra-se no ser humano do interior. Nas pessoas que sabem ver essas coisas que são ditas nas canções, que gostam de conversas longas, de café coado, de servir bolo para as visitas, que acreditam no que os outros dizem, que sabem confiar e também rir da vida”, descreveu. “Essa é uma das almas brasileiras. E, neste momento, especificamente, precisamos ir ao encontro dela como um remédio para a gente se reconhecer no que temos de melhor e nos reinventar como país. Nunca vi uma situação aqui em que precisássemos tanto disso.”Esse movimento caminha em paralelo ao neossertanejo de artistas como Luan Santana, Jorge & Mateus e Marília Mendonça — hoje a grande música popular do Brasil. À primeira vista, parecem propostas antagônicas — e realmente carregam profundas diferenças. Mas a compreensão da relação entre eles pode ter nuances insuspeitas, como nota Renata Grecco, que vê o sertanejo mainstream como “um neto de nosso sertanejo, um neto que saiu batendo a porta, dizendo que queria ganhar o mundo, fazer intercâmbio e ganhar em dólar”.“Eu olho para ele como uma avó olha: ‘Menino, cuidado para não se perder, não esquecer de suas raízes, vem visitar sua avó de vez em quando, comer de nossa comida, ouvir as nossas histórias’”, explicou a produtora. “Nosso sertanejo é o do Brasil feito à mão, da conversa ao pé do fogo, do homem e das coisas simples do sertão. Das rendas de bilro, dos caminhos do sem-fim. Lá onde o Guimarães Rosa se encontra com o Manoel de Barros para desdizer banalices. Das histórias de meninos que criam asas e de moças mais ardilosas que o diabo. Do café quentinho com bolinho de fubá e da lua que prateia os cabelos da amada. É o colo para onde você pode correr quando estiver em dúvida de quem é e do que veio fazer aqui.”Acima das diferenças, porém, Grecco afirma seu carinho de “avó” pelo “neto”. “Eu olho com amor para o mainstream e nisso talvez dona Inezita (Barroso, homenageada no disco Viola perfumosa) discordasse veementemente de mim. Sinto respeito e amor por artistas que arrastam multidões e lotam estádios com sua música, ainda que alavancados por uma indústria poderosa. Você pode gostar ou não do que eles apresentam, mas tem de admitir que 60 mil pessoas cantando juntas em um estádio é um troço muito bonito de ver. Tem uma verdade ali.”Breno Ruiz, no entanto, pondera que a lógica do neossertanejo acaba revelando mais da cidade do que do sertão. “O interior do agronegócio está a serviço dos modos de produção capitalista, e esse interiorano adota o mesmo modo de vida da urbe. Acho a ideia de grooves, de refrão imediato, muito consonante com o fast-food, com realçadores de sabor e com o ritmo frenético das indústrias”, disse. “Nesse sentido, a música que faço é o oposto. Ela é palatável, mas demanda respiro, pausa, aquietação. Índio tem uma sabedoria. Se tem sede, bebe. Se tem fome, caça. Se tem sono, dorme. O interior mais profundo preserva um pouco dessa característica.”Sabedoria, identidade, refinamento, invenção — tudo, portanto, que cabe no couro do tambor ancestral, no gosto do milho, na fala encantada e no horizonte sem arestas, ou seja, no Universo relido agora por esses artistas. O presente passado e o passado presente, enfim, do tal Jeca Total.
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