Artigo: Ivone, a artista que do Império Serrano jamais se afastou

20483248_2502.1990 - Delfim Vieira - Desfile da Escola de Samba Império Serrano com o enredo His.jpg

RIO — Desde ontem, não podemos mais ouvir o tiê entoar seu canto de beleza. Beleza não apenas em cerca de 140 inspiradas composições, mas, sobretudo, na sua forma de viver, com alegria, disposição e, sobretudo, com elegância.

Considerada a maior melodista do samba carioca, Dona Ivone Lara teve inúmeros parceiros e suas composições foram gravadas até mesmo por intérpretes menos próximos ao universo do samba.

Teve uma vida difícil. Órfã de pai aos três anos e de mãe aos 11, estudou em internato e logo seu excepcional talento para a música chamou a atenção. Por sorte, sua criação se dividiu entre uma parte da família que a queria longe do samba e tios e primos sambistas que a aproximaram daquilo que seria sua realização profissional e musical.

Começou a trabalhar cedo, como enfermeira. Mulher de sua época, cumpriu o rito familiar, casando-se, cuidando do lar e dos filhos. Mas, à frente de sua época, não abandonou a profissão para dedicar-se exclusivamente às tarefas domésticas. Só muito mais tarde, viúva e aposentada, iniciou, já madura, uma carreira profissional brilhante. Considerada a maior melodista do samba carioca, Dona Ivone Lara teve inúmeros parceiros e suas composições foram gravadas até mesmo por intérpretes menos próximos ao universo do samba.

Relembre grandes canções de Dona Ivone Lara

No Império Serrano chegou, no início da década de 1950, vinda do Prazer da Serrinha, escola da qual seu sogro era o manda-chuva. Prima de Mestre Fuleiro e de Tio Hélio, compunha e cantava com eles, mas só em 1963 foi oficialmente admitida na ala dos compositores e em 1965 assinaria seu primeiro e único samba-enredo na escola, “Cinco bailes tradicionais da história do Rio”, em parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau. Sem dúvida, a vida de uma mulher compositora não era fácil nas escolas de samba da época.

Sua voz afinada de pastora, suas composições ricas e melodiosas, sua discreta coreografia de sambista de verdade e um alto grau de profissionalismo lhe abriram as portas do sucesso

Na década de 1970 começa a se apresentar publicamente em shows. Soubera esperar, sem pressa. Sua voz afinada de pastora, suas composições ricas e melodiosas, sua discreta coreografia de sambista de verdade e um alto grau de profissionalismo lhe abriram as portas do sucesso. O reconhecimento nacional e internacional não tardaria.

Do Império Serrano jamais se afastou. Dos desfiles participou sempre que seus compromissos profissionais permitiam. Quem não se lembra de sua imagem esplêndida no carro abre-alas, vestida de baiana dourada, no enredo “Mãe baiana mãe”, em 1983? Amava sua escola de samba, onde se tornara sambista. A retribuição custou, mas veio: um lindo enredo em sua homenagem, no carnaval de 2012.

A partir de hoje, o tiê silenciou: viveu muito e com alegria, a alegria de fazer o que gostava. Talvez por isso, ao receber a notícia de seu falecimento, me veio imediatamente aos ouvidos a última estrofe de “Nos combates desta vida”, minha composição predileta dela, em parceria com Délcio Carvalho:

Nos lugares onde vou

Sou a razão da alegria

Quem sabe amar traz a luz

O sonho e a fantasia.

* Historiadora e jornalista, é co-autora do livro “Serra, serrinha, serrano: o Império do samba”


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