Análise: Um governo na base do improviso


As primeiras entrevistas do presidente eleito Jair Bolsonaro e de seus ministros já escolhidos confirmaram as suspeitas: a campanha do PSL era só mesmo retórica vazia e barulhenta, e o próximo governo vai ser montado na base da improvisação. Não é só pelo acinte, como disse o ex-governador Geraldo Alckmin, de o presidente eleito ameaçar a “Folha de S. Paulo” com corte de verbas públicas oficiais por não gostar da linha editorial do jornal, no dia seguinte a promessas de respeitar a liberdade de imprensa. Na questão crucial da reforma da Previdência, ficou claro que a estratégia para encaminhá-la vai ser montada, em linguagem clara, nas coxas.

No mesmo dia em que o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), escolhido por Bolsonaro para coordenar as relações do futuro governo com o Congresso reiterou as críticas à proposta de reforma da Previdência encaminhada por Michel Temer, considerada pelo futuro chefe da Casa Civil apenas um “remendo”, o presidente eleito defendeu que o projeto do atual governo seja votado ainda este ano pelo Congresso.

Pode ser até válida uma estratégia de tentar votar logo uma reforma, mas Bolsonaro, antes de anunciar tal disposição, deveria ter feito essa combinação não só com o seu articulador político, mas também com os “russos”: no caso, os presidentes do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Eunício, que não foi reeleito, já declarou sepultada qualquer chance de votação da reforma nesta legislatura. Maia, que foi reeleito e está esperando só um aceno de Bolsonaro para aderir ao próximo governo, antecipou ao GLOBO que qualquer reforma só no próximo ano. bolsonaro-trump

A improvisação foi também a marca do convite ao juiz Sérgio Moro para ocupar o Ministério da Justiça — e supostamente assumir uma missão de combate à corrupção e à criminalidade, também crucial para o futuro governo, pelo discurso feito por Bolsonaro durante a campanha. Ainda que estejamos na era imediatista das redes sociais, deve ser a primeira vez em que um convite para o Ministério da Justiça, a pasta mais antiga da Esplanada dos Ministérios, é feito ao vivo pela TV, sem sondagens e qualquer tipo de liturgia.

A descoordenação não parece menor na área do Posto Ipiranga. Na sua primeira entrevista como futuro superministro da Economia, Paulo Guedes demonstrou não ter uma ideia muito precisa sobre o Mercosul, o bloco econômico liderado pelo Brasil e responsável por um bom naco do comércio exterior do país. Ainda que ele considere o Mercosul irrelevante (opinião, de resto, compartilhada por muita gente boa), ele não poderia ter declarado isso na sua primeira entrevista como futuro titular de um ministério que poderá assumir responsabilidades na área de comércio exterior. Seu piti com a correspondente do jornal “Clarín” no Brasil foi vexatório. Ele deveria ao menos saber que o Mercosul é pauta prioritária para os argentinos, nosso terceiro maior parceiro comercial.

79608686_Rio de Janeiro RJ - 08-07-1989 - Jair Bolsonaro vereador - Bolsonaro no seu gabinete -.jpg

Os únicos que parecem ter um plano na cabeça, até porque estão acostumados com as tarefas de diagnóstico, planejamento e execução, são os militares. O general Augusto Heleno, que deverá assumir o Ministério da Defesa, e o vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão, seguiram o figurino ao rechaçar, em entrevistas, a hipótese de o Brasil apoiar uma intervenção militar na Venezuela para derrubar o governo do ditador Nicolás Maduro. Ambos lembraram que o Brasil tem uma política externa, baseada em princípios mais que centenários, de não apoiar intervenções em outros países. Os militares têm perfeita noção de Estado, conhecem história e sabem que o Brasil não começou no dia 28 de outubro.


Leia a notícia completa em O Globo Análise: Um governo na base do improviso

O que você pensa sobre isso?