Análise: O 'modelo líbio' que assusta Pyongyang

76539860_FILES In this file photo taken on April 9 2018 US President Donald Trump shakes hands w.jpgWASHINGTON — Se você quiser falar sério sobre paz e desnuclearização, talvez
seja melhor não mencionar a Líbia. Essa parece ser a mensagem que a Coreia do
Norte tinha para os Estados Unidos na quarta-feira, quando adiou diálogos com a
Coreia do Sul e ameaçou cancelar o encontro Kim Jong-un e Donald Trump marcado
para 12 de junho.

Além dos exercícios militares conjuntos que acontecem na Coreia do Sul, a
Coreia do Norte se mostrou especialmente incomodada com a sugestão do
conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, que uma
solução nos moldes da negociada com a Líbia poderia funcionar com os
norte-coreanos.

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“Membros do alto escalão da Casa Branca e do Departamento de Estado,
incluindo Bolton, estão
veiculando ideias de um chamado ‘modelo líbio’ de abandono nuclear”, afirmou o governo norte-coreano
num comunicado.

“O mundo”, afirmou a Coreia do Norte, “sabe muito bem que nosso país não é
nem a Líbia nem o Iraque, que tiveram fins desastrosos” (os ex-líderes do Iraque
e da Líbia, Saddam Hussein e Muamar Kadafi, foram retirados do poder e mortos).

A Coreia do Norte parece ter se ofendido com a sugestão de Bolton, no fim de abril, de que a Líbia poderia
servir de modelo para convencer a Coreia do Norte a abandonar seu programa de
armas nucleares. Bolton não
sugeriu (publicamente) que o “modelo líbio” incluiria mudanças no regime
norte-coreano, mas enfatizou a necessidade de desenvolver confiança e confirmar
os esforços de desnuclearização durante uma entrevista à rede CBS.

— O que queremos ver deles são evidências reais e não apenas retórica —
afirmou Bolton à
emissora em abril. — Algo que a Líbia fez que nos levou a superar nosso
ceticismo foi o fato do país permitir a presença de observadores americanos e
britânicos em suas instalações nucleares. Então não se trata apenas de depender
dos mecanismos internacionais. Os vimos de maneiras até então inéditas.

Logo, independentemente do fato da Líbia servir ou não como um modelo para a
Coreia do Norte, como os Estados Unidos convenceram Kadafi, em 2003 e 2004, a abandonar seu programa de
armas nucleares ainda em estágio inicial? A resposta parece variar dependendo de
quem é questionado.

O governo Bush tratou a
questão líbia como uma repercussão direta da invasão do Iraque em 2003 e das
operações de Inteligência para interromper rotas de comercialização das armas
nucleares líbias. Numa entrevista à rede CNN, o próprio Kadafi afirmou que a queda do regime de Saddam no Iraque pode ter influenciado sua decisão
de abrir mão de seu programa.

“Com palavras e ações, deixamos claras as opções remanescentes para os
potenciais adversários”, afirmou o então presidente, George W. Bush, ao anunciar o fim do programa, numa referência
indireta à Guerra do Iraque.

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Mas, na época, analistas expressaram críticas a essa associação, e sugeriram
que Bush poderia
estar tentando usar o sucesso na Líbia numa tentativa de defender suas ações no
Iraque. As concessões de Kadafi,
escreveu o analista de política externa da Brookings Martin Indyk, estavam em sua maioria ligadas à crise
econômica que assolava o país após anos de sanções e decisões erradas.

“A única saída era buscar uma reaproximação com Washington”, escreveu Indyk. E embora a CForeia do Norte tenha dependido durante muito tempo
da China, os Estados Unidos eram o poder dominante no Oriente Médio no começo
dos anos 2000 — o que deixava Kadafi com
poucas opções. Sua busca por aliados e reabilitação internacional acabaram por
levá-lo a adotar um tom mais conciliador com os Estados Unidos, diz o analista.
“Cansado do pan-arabismo, ele se voltou para a África, e teve pouco apoio de
seus aliados no continente. A remoção das sanções e do estigma que as
acompanhava passou a ser sua prioridade”, escreveu Indyk.

Diversos relatos sugerem que a disposição de Kadafi de negociar um fim para seu programa de armas
nucleares foram inicialmente rejeitadas.

Quando a oferta do fim do programa em troca do alívio das sanções se mostrou
insuficiente, o líder líbio buscou outras maneiras de resolver suas diferenças
com o Reino Unido a respeito do bombardeio do voo 103 da PanAm em 1998 — uma condição americana para qualquer
diálogo futuro. Ao todo, 270 pessoas morreram no ataque pelo qual Kadafi eventualmente assumiu responsabilidade,
embora ele tenha insistido que não ordenou o bombardeio. Para resolver a questão
com o Reino Unido, a Líbia concordou em pagar pelo menos 5 milhões de libras
esterlinas às famílias de cada uma das 270 vítimas.

O acordo abriu o caminho para o fim do programa de armas nucleares da Líbia e
a verificação de inspetores internacionais — o tipo de medidas as quais Bolton se referia em sua entrevista à CBS.

Quatro anos após abandonar seu programa clandestino de armas, Kadafi parecia reabilitado durante uma visita de
cinco dias a Paris.

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“Se não abrirmos os braços para países que estão começando a trilhar um
caminho respeitável, o que diremos àqueles que se desviarem desse caminho”,
afirmou na ocasião o então presidente francês Nicolas Sarkozy, se
defendendo das críticas contra a visita de Kadafi.

No entanto, quando a chamada Primavera Árabe começou, em 2011, Sarkozy estava entre os líderes por trás de uma
intervenção militar na Líbia que ajudou a derrubar Kadafi — um cenário difícil de ser imaginado caso a
Líbia estivesse em posse de armas nucleares. Posteriormente, o ex-líder líbio
foi morto por forças rebeldes.

Embora Bolton possa
estar se referindo aos eventos de 2003 ao falar do “modelo líbio”, o que a
Coreia do Norte entendeu da mensagem foi o episódio final, de 2011.

Suas palavras, afirmou a Coreia do Norte nesta quarta-feira, soaram
“terrivelmente sinistras” para Pyongyang.


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