Análise: Carpinejar assistiu a peça com transexual no papel de Jesus Cristo

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PORTO ALEGRE — Porto Alegre, que um dia ficou conhecida como a capital da democracia e que já sediou o Fórum Social Mundial, estava a um passo de se tornar uma referência de intolerância cultural no país e pôr fora todas as suas conquistas de diversidade, como a Bienal do o Mercosul, num único mês. Seria o setembro mais reacionário da vida porto-alegrense. A exposição Queermuseu, sediada no Santander Cultural, entrou em cartaz no dia 15 de agosto e ficaria até o dia 8 de outubro, mas foi cancelada no dia 10. A mostra foi acusada por integrantes do MBL de pedofilia, zoofilia e ainda promover a sexualização de crianças.

Por pouco não houve reincidência de censura no meio cultural.

A Justiça negou liminar que solicitava a proibição do espetáculo teatral “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, dentro da programação do 24º Porto Alegre Em Cena. A mesma peça já havia sido vetada quando estava em cartaz no Sesc Jundiaí (SP).

Mexer com a tradição canônica sempre provoca reações exacerbadas. O romance “A Última Tentação”(1954), de Nikos Kazantzákis, que humanizou Jesus como um fabricante de cruz aos romanos, entrou para o “Index Librorum Prohibitorum”, lista de obras proibidas pela Igreja Católica, e seu autor foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Grega. José Saramago se viu obrigado a sair de Portugal e se isolar em Lanzarote (Ilhas Canárias) ao propor um relacionamento ente Jesus e Maria Madalena em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991).

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No caso de “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, dramaturgia criada pela escritora escocesa Jo Clifford, o estopim se resumiu a trazer Jesus Cristo à contemporaneidade, encarnado na pele de uma mulher transexual. Na porta dos teatros ingleses, em 2009, ocorreu mobilização de fundamentalistas com cartazes discriminando a autora, por considerar o conteúdo blasfemo e apócrifo.

A adaptação brasileira, traduzida e dirigida por Natalia Malo, com atriz travesti Renata Carvalho protagonizando a compaixão (mais do que a paixão) de Cristo, experimentou uma trégua gaúcha em seu calvário de incompreensão.

A apresentação no Teatro Bruno Kiefer estava entusiasmadamente lotada na noite dessa quinta-feira, com 200 espectadores, e contará com sessão extra na sexta-feira, já esgotada. Não teve registro de manifestação contrária nos bastidores da Casa de Cultura Mario Quintana, no centro de Porto Alegre, ironicamente a duas quadras do Santander Cultural.

Na verdade, não há nada de ofensivo em “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”.

Pelo contrário, a encenação enaltece os sermões de Cristo e transmite uma mensagem de tolerância, mostrando o quanto as palavras são ações, o quanto todo humano é divino, o quanto o amor revolucionário e igualitário é fundado no perdão.

Não há desrespeito aos símbolos da Igreja, muito menos grandes transgressões performáticas. A seriedade excessiva das parábolas é alternada com o humor das gírias e números rápidos de funk e samba. Nem uma troca de roupa em cena chega a escandalizar.

É um monólogo engajado e carismático, no vaivém da Messias entre o tablado e o público, invocando a participação dos espectadores a partir da distribuição de velas, pão e vinho, numa recaracterização pop da Última Ceia. Porém, um dos pontos positivos é a anti-glamourização do mundo LGBT, sem recorrer aos lugares comuns das coreografias de Cher e Glória Gaynor.

A pregação mantém um andamento confessional, pausado, sereno, às vezes lembrando a celebração altissonante de uma igreja, outras vezes lembrando a catarse sussurrada de uma terapia.

Se o personagem não fosse bíblico, não existiria barulho na web.

O desconforto é muito mais político, sustentado apenas no fato do papel principal ser ocupado por uma atriz trans, uma escolha absolutamente pertinente para refletir a transfobia e a homofobia numa nação líder mundial em homicídios de travestis (em 2016, foram 127 mortes, uma a cada 3 dias).

Em um movimento ficcional, cria-se a hipótese verossímil de que se Jesus voltasse nos dias de hoje como uma travesti seria igualmente crucificado aos 33 anos. Afinal, a expectativa brasileira de vida deles é de 35 anos, menos da metade da média nacional, que é de 75 anos.

Mas nada demais no palco já é prato cheio para o patrulhamento e perseguição preconceituosa em nossa nova Idade Média. Que venha logo a Renascença da diversidade. Ou a ressurreição da empatia.

Fonte: O Globo Análise: Carpinejar assistiu a peça com transexual no papel de Jesus Cristo

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