Alto custo econômico revela irracionalismo do Brexit

Chamou a atenção da mídia internacional a retórica ameaçadora de Donald Trump em sua primeira participação na Assembleia Geral da ONU. Porém, tanto quanto a ameaça de aniquilar a Coreia do Norte, o aspecto preocupante de sua oratória foi a mal disfarçada defesa do isolacionismo e da crítica à globalização que fez ao reafirmar o slogan de campanha: “Os EUA em primeiro lugar”. Ali, ele defendeu novamente um projeto de governo que submete questões como mudança climática, armas de destruição em massa, crises humanitárias, entre outras, a interesses exclusivos dos EUA.

Numa fala contraditória, o titular da Casa Branca elogiou os pactos multilaterais que deram estabilidade ao mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mas insinuou que estas mesmas instâncias, incluídas aí a própria ONU, são uma ameaça aos objetivos americanos. Sua ênfase na soberania americana em detrimento de uma colaboração multilateral, mediada pela ONU e outras instâncias, para enfrentar os dilemas do mundo contemporâneo, enfraquece a defesa de valores civilizatórios, como a noção de direitos humanos; dificulta o desenvolvimento sustentável; e estimula isolacionismo de outras nações.

O exemplo mais dramático do contágio nacionalista poder ser visto no processo de divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia (UE). Aprovado por uma margem apertada num plebiscito realizado em junho do ano passado, o chamado Brexit foi um grito irracional de soberania, em defesa de supostos valores nacionais. Neste pouco mais de um ano, porém, os sinais de irremediável tiro no pé da iniciativa se tornam cada vez mais evidentes. Até mesmo membros do governo britânico já começam a admitir publicamente os efeitos colaterais do divórcio e as dificuldades do processo de negociação, marcada para ser concluída em março de 2019.

Esta semana, o insuspeito presidente do Banco da Inglaterra (o banco central britânico), Mark Carney, disse, segundo o jornal “Financial Times”: o Brexit é um exemplo de “desglobalização” que vai prejudicar a economia britânica à proporção que os laços comerciais com a UE se enfraquecerem, levando a uma maior pressão inflacionária. Segundo ele, mesmo sem que o país tenha tido a intenção de se isolar do resto do mundo, a saída da UE terá esse efeito na prática, pois levará tempo para que o Reino Unido substitua os vínculos perdidos com a Europa.

Confrontada por maior inflação, a autoridade monetária britânica elevará os juros, desestimulando a economia como um todo, num momento em que o mundo ainda se recupera da crise financeira de 2008, e o Reino Unido estará recompondo suas parcerias comerciais pós-Brexit. Também haverá efeitos nocivos para a UE e outras nações dependentes da relação câmbio e commodities. Tudo isso em nome de um nacionalismo subjetivo e anacrônico.

Fonte: O Globo Alto custo econômico revela irracionalismo do Brexit

O que você pensa sobre isso?