Alemanha tem o dever de enfrentar antissemitismo, diz Merkel no aniversário da ‘Noite dos Cristais’


BERLIM – A Alemanha tem o dever moral de enfrentar o crescente antissemitismo e o extremismo de direita, disse a chanceler alemã Angela Merkel nesta semana sexta-feira, em um discurso emocionado na maior sinagoga de Berlim, para marcar o aniversário de 80 anos de uma campanha nazista para atacar judeus.

Vestida de preto, Merkel disse a lideranças da comunidade judaica alemã que a violência antissemita, oriunda de militantes de extrema direita ou de fundamentalistas islâmicos, recrudescia na Alemanha, oito décadas depois.

— O Estado deve atuar de maneira consequente contra a exclusão, o antissemitismo, o racismo e o extremismo de direita — disse Merkel. — A vida judaica volta a florescer na Alemanha, o que nos é uma dádiva inesperada, depois da Shoah. Mas também testemunhamos um preocupante antissemitismo que a ameaça em nosso país — acrescentou, empregando o termo em hebreu para o Holocausto. antissemitismo_9_11_2018

Solenidades na Alemanha e na Áustria marcaram a “Noite dos Cristais” (“Kristallnacht”, em alemão), quando, em 9 e 10 de novembro de 1938, houve uma perseguição contra judeus em toda a Alemanha nazista, realizada por milícias paramilitares das SA e civis alemãs.

De acordo com estudiosos, o número de vítimas fatais varia entre 91 e centenas de pessoas. Cerca de 30 mil judeus foram presos e encarcerados em campos de concentração, e casas, hospitais e escolas judaicas foram saqueadas e devastadas. Ainda foram destruídas 267 sinagogas e mais de 7 mil empresas judias foram arrasadas ou danificadas.

O nome “Noite dos Cristais” vem dos cacos de vidro quebrados que cobriam as ruas depois que as janelas de lojas, edifícios e sinagogas de propriedade de judeus foram destruídas.

Durante o discurso, Merkel pediu tolerância zero às tentativas de grupos de extrema direita de responsabilizar a comunidade muçulmana da Alemanha pela violência cometida por militantes islâmicos.

Pouco antes da fala de Merkel, um tribunal de apelação em Berlim anulou uma decisão da polícia de proibir uma passeata de extrema direita na capital prevista para mais tarde na sexta-feira.

A polícia barrara o evento, sob a alegação de que seria inaceitável realizar uma marcha de extrema direita no mesmo dia em que o resto do país homenageava vítimas judias da violência nazista.

O tribunal decidiu, todavia, que os direitos constitucionais à liberdade de expressão e reunião eram primordiais. Um contra-protesto de grupos de esquerda também foi planejado.

A decisão de Merkel, em 2015, de receber quase um milhão de migrantes, a maioria muçulmana, alimentou a ascensão do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que diz que o Islã é incompatível com a Constituição alemã.

Em setembro, os alemães ficaram chocados com imagens de skinheads perseguindo migrantes na cidade de Chemnitz, no Leste do país, depois que um homem foi esfaqueado e morto e dois imigrantes foram presos como suspeitos. Militantes de extrema direita entraram em confronto com a polícia e atacaram um restaurante judeu.

— Essa forma de violência antissemita nos lembra o início dos pogroms — disse Merkel, utilizando a palavra usada para a perseguição violenta deliberada contra um grupo étnico ou religioso.

Em Viena, o chefe do governo da Áustria, que inclui um partido fundado por ex-nazistas, prometeu na sexta-feira o apoio à segurança de Israel, no momento em que o país também relembra a Noite dos Cristais.

A Áustria por décadas se apresentou como uma vítima do nazismo ao invés de reconhecer sua colaboração com seus crimes, incluindo o Holocausto, afirmou o chanceler conservador Sebastian Kurz, que disse que isso mudou:

— Fizemos isso tarde demais, mas confrontamo-nos com nossa própria história — disse Kurz, em cerimônia no Parlamento — Em 2018, deixamos de simplesmente suprimir os eventos das horas mais sombrias de nossa história.

O evento contou com a presença de membros do parceiro de coalizão de Kurz, o Partido da Liberdade da Áustria (FPO), de extrema direita. Embora tenha sido fundado por ex-nazistas na década de 1950, o partido diz que se opõe ao antissemitismo e denuncia o Holocausto.

Autoridades do partido, no entanto, foram envolvidas em recentes escândalos antissemitas. Em fevereiro, foi revelado que grupos universitários com a participação de membros do partido cantavam músicas antissemitas, incluindo canções em exaltação ao Holocausto.

No mesmo mês, o partido foi condenado pela justiça a indenizar a Juventude Muçulmana da Áustria, organização de apoio profissional e social a jovens muçulmanos, por acusações de que se trataria de uma organização islâmica. A organização informou que doaria o valor para organizações que combatem o racismo, a islamofobia e o antissemitismo.


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