Água para quem precisa

Água é o bem mais precioso do planeta, confunde-se com a própria vida. Desde os primórdios, a disputa pelo domínio de nascentes e de rios transfronteiriços potencializou conflitos entre povos.

No mundo de hoje, as mudanças climáticas impõem às nações o desafio urgente de pactuar formas de se compartilhar recurso tão vital à sobrevivência. Um universo de pessoas de inúmeras nacionalidades vive sem acesso à água potável em quantidade e qualidade necessárias para ter uma vida digna.

O Brasil não é exceção, convive com a escassez do recurso, apesar de privilegiado pela natureza. O território nacional concentra 12% da água doce do mundo e abriga as maiores reservas subterrâneas: o Sistema Aquífero da Grande Amazônia (integralmente) e o Aquífero Guarani (distribuído também por solos argentino, uruguaio e paraguaio).

Entretanto, há grande disponibilidade de água em áreas pouco habitadas e reduzidas fontes para garantir o abastecimento de áreas populosas — uma má distribuição que piora com intempéries e atinge estados indistintamente. Uma seca de sete anos castiga o Nordeste, e moradores de regiões tradicionalmente livres de estiagens tão críticas viram-se obrigados a lidar com crise hídrica sem precedente.

Desde 2017, Brasília convive com racionamento inédito, consequência de três anos de seca intensa, de indiscriminada ocupação irregular e da falta de investimentos no reforço de produção de água por 16 anos. Neste momento, já vislumbramos o término do rodízio porque inauguramos duas obras de captação, a população consumiu menos, e as chuvas voltaram a encher os reservatórios. Além disso, Corumbá IV trará mais água até o final do ano.

Outro exemplo é o do Sistema Cantareira, responsável por abastecer nove milhões de pessoas em São Paulo, que em 2014 sofreu a pior estiagem em 85 anos. Choveu 43% abaixo das médias históricas e, para garantir água nas torneiras, a Sabesp reduziu a vazão, dos costumeiros 33 m3/s a menos da metade, no auge da crise.

Episódios extremos de escassez se espalham mundo afora. A Cidade do Cabo vive um drama, já limitou o consumo a 50 litros diários per capita, bem inferior aos 110 litros recomendados pela Organização Mundial da Saúde, e cogita ainda eventual adoção do “Dia Zero”, com corte total de água encanada.

A segurança hídrica é tema tão instigante que a ONU incluiu água potável e saneamento entre os 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), com metas a serem alcançadas pelas nações até 2030.

Neste mês, em Brasília, teremos a oportunidade ímpar de partilhar conhecimentos, tecnologias e experiências sobre o assunto durante o 8º Fórum Mundial da Água, a primeira edição no Hemisfério Sul. O fórum, realizado a cada três anos, reunirá pelo menos 13 chefes de Estado e especialistas, políticos, acadêmicos, juristas, líderes espirituais e cidadãos comuns de mais de 150 países em torno do tema “Compartilhando Água”.

O Brasil contribuirá com boas práticas e avançada legislação, que assegura aos cidadãos usos múltiplos e responsabilidade sobre a água, um bem de domínio público, dotado de valor econômico e limitado.

Rodrigo Rollemberg é governador de Brasília


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