9 coisas que talvez você não saiba sobre militares latino-americanos que se tornaram presidentes pelas urnas (ou quase isso)


1 – Quatro golpes militares de sucesso e três eleições nas urnas (e um astrólogo a tiracolo): Capitão do exército argentino, Juan Domingo Perón debutou em sua carreira pública como golpista. Ele foi um crucial protagonista, em 1930, da derrubada do presidente civil, eleito nas urnas, Hipólito Yrigoyen. O general Félix Uriburu assumiu, inaugurando a primeira ditadura militar da era moderna da Argentina. No dia 4 de junho de 1943, participou de outro golpe, que derrubou o civil Ramón Castillo e instalou o general Arturo Rawson no poder. Três dias depois, Perón atuou em um novo golpe, derrubando Rawson e instalando o general Pedro Ramírez. Mas, em março de 1944, voltou a participar de outro golpe, que derrubou Ramírez e colocou outro militar, o general Edelmiro Farrell no poder. Agradecido por sua ativa participação para colocá-lo no poder, Farrell designou Perón como vice-presidente (além de secretário de Trabalho). Porém, perante o crescimento da influência política de Perón, Farrell ordenou sua prisão. Devido às manifestações populares pedindo sua liberdade, o general teve de soltá-lo. Farrell tornou-se uma figura decorativa, e Perón consolidou seu poder por intermédio de eleições presidenciais em fevereiro de 1946.

Golpista militar quádruplo, Perón foi eleito nas urnas – além de 1946 – outras duas vezes (em 1952 e em 1973).

Foi amigo dos principais ditadores de direita da América Latina na época, entre os quais o paraguaio Stroessner, o dominicando Trujillo e o nicaraguense Somoza. Em seu primeiro governo chegou a acolher (e em vários casos, a empregar) criminosos de guerra nazistas, colaboracionistas franceses, ustashas (croatas) e fascistas italianos. Perón impôs um sistema de sindicatos totalmente alinhados com sua pessoa e torturou e expulsou líderes comunistas ao mesmo tempo quer tinha relações tensas com os EUA. Seu slogan era: “Nem ianques nem marxistas, somos peronistas”.

No exílio, para manter a obediência das diversas correntes do multifacético peronismo, estimulou – simultaneamente – grupos da esquerda e da direita peronista. Ao voltar do exílio, em 1973, colocou sua terceira esposa, Isabelita, como vice-presidente e expulsou do governo a ala esquerda do peronismo (que acabou criando os “Montoneros”, grupo que era uma salada ideológica esquerdista-cristão-nacionaista). Seu antigo mordomo, José López Rega, tornou-se o poderoso ministro da Ação Social. López Rega também criou a Aliança Anticomunista Argentina (AAA), grupo paramilitar que desatou um massacre de opositores, instalando um estilo represivo que a ditadura militar que derrubou Isabelita em 1976 reciclou e intensificou. López Rega também tinha uma função adicional para o casal Perón, que lhe valia o apelido de “El Brujo” (O Bruxo), a de astrólogo.

2 – Primeiro, uma tentantiva fracassada de golpe… depois, as urnas: “Foi o melhor presidente que meu país teve!” Com estas palavras, o tenente-coronel venezuelano Hugo Chávez elogiou em diversas ocasiões o ex-ditador e general Marcos Pérez Jiménez, nacionalista de direita, que – após um golpe militar – governou o país com mão-de-ferro entre 1953 e 1958. O próprio Chávez, quando foi eleito em 1998, teve o respaldo enfático dos presidentes de direita Alberto Fujimori (do Peru) e Carlos Menem (da Argentina).

Chávez, na época, até teve a simpatia do capitão de reserva Jair Bolsonaro, que em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, no 4 de setembro de 1999 (7 meses após a posse do bolivariano), declarou que Chávez era “uma esperança para a América Latina e gostaria muito que esta filosofia chegasse ao Brasil. Acho ele ímpar”. Na entrevista, Bolsonaro afirmou que Chávez (que também era da área de paraquedismo do exército) “vai fazer o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força”. Na ocasião, o Estadão perguntou ao capitão reformado brasileiro o que ele achava de os comunistas apoiarem Chávez. Bolsonaro respondeu: “Ele não é anti-comunista e eu também não sou. Na verdade, não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar. Nem sei quem é comunista hoje em dia”.

Hugo Chávez havia debutado na vida pública em 1992, tal como Perón, ao liderar um golpe militar contra o governo do presidente civil Carlos Andrés Pérez. No entanto, fracassou e foi preso. Posteriormente foi liberado. Em 1998 venceu as eleições presidenciais após uma campanha fulminante apresentando-se como o candidato que faria a Venezuela “grande de novo” e que colocaria o país “em ordem” acabando com a inflação, um velho fantasma dos venezuelanos desde os anos 70.

Chávez, ex-golpista, foi alvo de um golpe em 2002. Foi preso pelos novos golpistas durante dois dias. Mas seus aliados realizaram um contragolpe e ele voltou ao poder. Foi reeleito três vezes. Nesse ínterim, aproximou-se do regime cubano, do qual se tornou um fervoroso defensor (e grande financiador, por intermédio de fornecimento de petróleo praticamente de presente). Chávez, que batizou seu movimento de “bolivarianismo” também batizou seu estilo ideológico de “Socialismo do Século XXI”(um socialismo que tem uma burguesia, a denominada “boli-burguesia”).

Chávez morreu de câncer e foi sucedido em 2013 por seu delfim, o ex-chanceler e ex-vice-presidente Nicolás Maduro.

3 – Como “ganhar” eleições com 97% dos votos: O general Alfredo Stroessner chegou ao poder no Paraguai por intermédio de um golpe militar em 1954 e instalou uma sangrenta ditadura de 35 anos de duração. No entanto, logo depois inaugurou um sistema eleitoral com o qual tentava dissimular que o país estava sob regime militar. Nessa ficção de democracia, existia um parlamento controlado, no qual seu partido, o Colorado, sempre ganhava as eleições marcadas pela fraude, enquanto que a oposição era censurada e perseguida. Era a Lei do Mbareté (palavra que em guarani significa “muito forte”. Isto é, uma espécie de lei da selva). Stroessner sequer tentava dissimular, pois geralmente era eleito com mais de 90% dos votos (em 1958 venceu com 97,3%).

Seu regime assassinou entre 4 mil e 5 mil civis, além de ter provocado centenas de milhares de exílios. Além disso, 18.772 pessoas foram vítimas de torturas físicas, sexuais e psicológicas durante a ditadura. Nos anos 50, acolheu centenas de criminosos de guerra nazistas, aos quais dava passaportes paraguaios.

Stroessner não se envergonhava do envolvimento ativo das Forças Armadas no contrabando, alegando que esse era “o preço da paz”. Durante seu regime o Paraguai tornou-se o “hub” do contrabando na América Latina, desde cocaína, passando por eletrônicos, a carros de luxo roubados.

De quebra, o culto à personalidade era total: O Partido Colorado imprimia diariamente um jornal de 6 páginas a cores com notícias exclusivas sobre Stroessner.

4 – O Consogro – e sócio – que derrubou o ditador (de 97% dos votos para uns mais discretos 75%): Na madrugada do 3 de fevereiro de 1989, o general Andrés Rodríguez liderou um golpe militar que derrubou outro militar, o general e ditador Alfredo Stroessner. A surpresa dos paraguaios foi total. Rodríguez, além de sócio comercial, era o consogro de Stroessner. O novo inquilino do palácio de López, a sede do governo, declarou que assumia a presidência de forma provisória e prometeu realizar eleições livres. E, ao contrário do que a maioria imaginava, cumpriu a palavra. Mas, em vez de contentar-se com a provisoriedade do cargo, o general decidiu apresentar-se candidato.

Foi eleito presidente em maio de 1989. Nas urnas, não apareceram os resultados de 95% dos tempos de Stroessner. Nesta ocasião, foram 75%, que chamaram a atenção dos analistas internacionais.

Antes do golpe militar, o governo dos EUA investigava o general Rodríguez por supostos envolvimentos com o narcotráfico. Mas, com a volta do Paraguai à democracia, Washington deixou de lado as averiguações sobre o assunto. Rodríguez aboliu a pena de morte que havia sido implantada por Stroessner e governou o país até agosto de 1993. Na sequência, assumiu o poder Juan Carlos Wasmosy, o primeiro civil em mais de meio século de história paraguaia.

5 – O coronel “salvador da pátria” que tentou várias fugas em uma única semana: Em 1997, o Equador estava em pleno caos político. O presidente Abdalá “El Loco” Bucaram foi destituído por insanidade. Na primeira noite após a destituição, o país teve três presidentes… simultâneos (essas horas são chamadas no Equador de “A noite dos Três Patetas”). O Parlamento coloca um presidente provisório e em 1998 realiza eleições. Mas o novo presidente, Jamil Mahuad dura pouco. O país, falido, é cenário de turbulências sociais. Assume o vice, Gustavo Noboa, que consegue completar o mandato. Em 2003, um militar vence as eleições (o primeiro – e único – militar eleito nas urnas desde a volta da democracia).

Ele é o coronel Lúcio Gutiérrez, um nacionalista de centro-esquerda, que faz campanha alegando que é o único candidato anti-establishment, e que imporá disciplina ao país. Ele é aclamado como o “salvador da pátria”.

Mas os problemas econômicos ressurgem. Em 2005 multidões protestam nas ruas e exigem a renúncia do presidente.

Gutiérrez promete que resistirá até o final. No entanto, de forma pouco marcial foge pelo teto do palácio Carandolet em helicóptero. Na sequência, vai até o aeroporto onde o esperava um avião militar, que já tinha os motores ligados para fazer uma fuga acelerada. No entanto, manifestantes invadiram a pista, impedindo a decolagem. Gutiérrez refugiou-se na embaixada do Brasil, da qual saiu dias depois fantasiado de policial. Dali foi ao aeroporto, onde embarcou em um helicóptero que o levou à cidade de Lacatunga, onde subiu em um avião da Força Aérea Brasileira no qual partiu do Equador rumo ao Brasil, e dois meses depois para os Estados Unidos.

6 – O general estuprador que era “presidente benfeitor da humanidade”: “Fundador e Chefe Supremo do Partido Dominicano”, “Pai da Pátria Nova”, “Restaurador da Independência Financeira” e “O Chefe”. Estes eram os títulos que o dócil Parlamento dominicano concedeu ao presidente – e “generalíssimo”- Rafael Leónidas Trujillo entre 1930 e 1961. Os parlamentares também consideraram que seu governo, na pequena República Dominicana no meio do Caribe, valia-lhe o título de “Benfeitor da Humanidade”.

Trujillo, nascido em 1891, teve seu primeiro emprego aos 16: telegrafista. No entanto, depois de digitar o código morse durante três anos, cansou-se da atividade e optou por um métier com maior adrenalina, dedicando-se à falsificação de cheques. Posteriormente, criou e liderou uma gangue de ladrões. Depois foi guarda de canaviais, onde exercia sua crueldade com os canavieiros. Mas, em 1918, considerou que poderia fazer carreira na recém-criada Guarda Nacional. Pouco depois de ser designado tenente, foi submetido a julgamento militar por violação de uma menor. No entanto, foi absolvido, apesar das provas do crime. Estuprador, estelionatário e torturador, em menos de uma década de carreira, Trujillo alcançou o grau de general.

Em 1930, participou de uma rebelião contra o presidente Horácio Vázquez, que foi derrubado. O país precisava de um novo presidente e preparava eleições. Trujillo apresentou-se como candidato, e meses depois, após uma breve campanha na qual sua velha gangue aterrorizou e intimidou o eleitorado, além de espalhar fakenews sobre seus rivais, foi eleito presidente.

Mas, do total de eleitores do país, votaram apenas 54,61%. Os outros se abstiveram ou foram impedidos de votar. E, dos eleitores que foram às urnas, Trujillo foi eleito com 99,17% dos votos. Depois de tomar posse, para garantir seu poder, proibiu quase todos os partidos políticos. Durante seu governo massacrou mais de 50 mil civis.

A forma como tratava as mulheres (ele costumava ameçar famílias para ter sexo com suas filhas) acabou gerando uma data: o 25 de novembro, o “Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres”. Nessa data (em 1960), ordenou o assassinato de Minerva Mirabal, que se negava a fazer sexo com ele. Os jagunços de Trujillo também assassinaram suas irmãs Maria e Maria Tereza Mirabal.

7 – “Cara de abacaxi”, o militar que elegia civis nas urnas: O general Manuel Noriega nunca foi candidato presidencial no Panamá. Mas organizava eleições para políticos civis que ele controlava. Os civis tinham o título de “presidente”, enquanto ele usava o de “Líder Máximo da Liberação Nacional do Panamá”. Além de governar com truculência, matando opositores, de forma part-time o militar dedicou-se à venda de segredos, suborno, chantagem, compra de lealdades e tráfico de influência. Fazia o jogo dos Estados Unidos ao mesmo tempo que prestava ajuda a Fidel Castro. Ele tinha ótimas relações com o governo sandinista da Nicarágua, mas ao mesmo tempo lavava dinheiro para as guerrilhas anti-sandinistas.

Em 1989, a Casa Branca considerou que Noriega não era mais útil e tornava-se um problema, especialmente depois que o ditador anulou as eleições presidenciais perdidas por seu títere.

O governo Bush, para “proteger os interesses no canal”, invadiu o Panamá em cinematográfico desembarque. Noriega, que havia dito que resistiria até a morte, optou pela saída menos épica e escondeu-se na Nunciatura Apostólica. Depois se entregou e foi preso e julgado.

Desde criança, o ditador tinha a face marcada pela varíola, fato que lhe valeu o apelido de “cara de abacaxi” por parte da população. Em 2014, da prisão, entrou com um processo na Justiça da Califórnia contra a empresa que produzia o videogame “Call of duty”, reclamando que o retratava como “sequestrador e inimigo do Estado”. No jogo o personagem era chamado de “Velha cara de abacaxi”. Noriega perdeu o processo.

8 – O ditador que voltou ao poder (mas eleito): Na América do Sul, existe apenas um caso de ex-ditador que voltou ao poder eleito nas urnas: o boliviano general Hugo Bánzer Suárez. Sua carreira como ditador começou em 1971, quando derrubou um colega, o general Juan José Torres. Seu currículo como ditador acumulou prisões, torturas e exílios de opositores políticos, uma escalada da corrupção e uma disparada do déficit fiscal. Banzer participou do Plano Cóndor, de cooperação na repressão das ditaduras no Cone Sul nos anos 70. Declarado anti-comunista, obteve apoio dos EUA. Durante seu governo começou a escalada do business do narcotráfico na Bolívia. Foi derrubado por militares rivais em 1978.

Posteriormente, fundou um partido político e tentou voltar ao poder candidatando-se a presidente. Em 1997, o anti-comunista Bánzer conseguiu ser eleito no Parlamento (a eleição na época era indireta) graças a um acordo com seu ex-arqui-inimigo e ex-presidente Jaime Paz Zamora, líder do partido Movimento de Esquerda Revolucionária. Na ocasião, prometeu “humanizar o modelo neoliberal”. Mas as privatizações que começou a implementar foram altamente impopulares. Na sequência, seu governo mergulhou o país na crise econômica, com um déficit fiscal de 7% e um crescimento do PIB de apenas 1% em 2001. Nesse ano, apresentou sua renúncia, anunciando que tinha câncer. Morreu em 2002, enquanto nas ruas a crise desatada por ele aprofundava-se.

9 – O civil que sonha ser militar: Nicolás Maduro chegou ao poder graças à morte de seu chefe, Hugo Chávez. Ex-motorneiro do metrô de Caracas, ex-deputado e ex-chanceler, Maduro não tinha nem o carisma de Chávez, sequer seu jogo de cintura para negociar. E, para complicar, não era militar como seu antecessor. Mas precisava do respaldo dos quartéis para manter o imenso esquema de poder do chavismo. Nesta meia década no poder Maduro foi um inédito caso de civil que adota uma parafernália militar, desde constantes paradas do exército, vocabulário bélico em seus discursos (“a trincheira da economia”, o “combate da educação”, “a guerra contra o contrabando”, etc), continência para qualquer circunstância, milionárias importações de armamento.

Maduro colocou generais, almirantes e coronéis no comando de um terço dos ministérios e metade dos governos de estados. Além disso, os militares controlam a distribuição de alimentos, administram as maiores jazidas de minérios do país e administram a estatal petrolífera PDVSA, entre outras arruinadas ou semi-arruinadas estatais.

Denúncias da Anistia Internacional, da OEA, de partidos da oposição venezuelanos afirmam que o regime bolivariano aplica torturas e prende pessoas de forma arbitrária. O regime se defende dizendo que os presos são “bandidos”. Maduro, em um ato falho, meses atrás, indicou a existência de torturas. “Eles vão cantar, tenham certeza!”, disse em referência a um grupo de pessoas que o governo apontava como supostas autoras de uma suposta rebelião militar. “Cantar”, nesse contexto, significa confessar algo sob tortura.


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